segunda-feira, 9 de junho de 2025

O últimos são os primeiros

Não passava de um simples passeio pela aldeia, aquela caminhada sob um sol abrasador de uma tarde de Verão. Não havia ninguém na rua, ao longe o alcatrão soltava baforadas de ar quente, as paredes brancas, caiadas, emanavam um brilho encandeante que me feria o olhar.
No café, meia dúzia de pessoas conversavam sobre as intempéries da época:
- Já viu, vizinho? Há um grande incêndio para os lados da Amarelêja!!
- Pois, já ouvi falar. Os bombeiros aqui da terra foram chamados para ajudar. Até há helicópteros envolvidos!...
- É verdade!
O espaço não tinha ar-condicionado. A única coisa que possivelmente pudesse refrescar era uma ventoinha de tecto de rodava a tal velocidade que parecia que, não tardando, ia saltar dos apoios. A D. Amélia, dona do Café, pergunta-me o que quero. Respondo que é um gelado, e ela deixa-me ir à arca escolher. Pago e sigo caminho, outra vez para aquela tórrida e asfixiante rua em direcção a casa, já que a minha mãe me disse para não demorar e, por causa do calor, até me obrigou a trazer um boné da Coca-Cola. Que vergonha. Já tenho 12 anos, não preciso de boné!!!!
Começo a comer o gelado, um cornetto de morango, mas tenho de ser rápido que já começa a derreter. Ao longe vislumbro algo que me confunde: Uma luz fortíssima a vir na minha direcção. Um objecto relativamente alto, esguio e amarelado. Protejo os olhos e continuo em frente e, conforme me vou aproximando, o objecto começa a ganhar forma: pernas. Agora já o brilho não me ofusca tanto como há pouco, e estava mais concentrado na parte superior deste indetectável objecto… com pernas! Tinha pernas e calçava sapatilhas, a rapariga que durante uns penosos 40 metros me encandeou com o que agora sei que foram os seus longos cabelos loiros.
Enquanto a nossa distância encurtava, e estávamos na eminência de nos cruzarmos, eu reparava que ela não era dali. Cabelos longos, loiros e lindos, um nariz de uma lindíssima simetria, uns olhos azuis maravilhosos sem qualquer margem para dúvidas, mas não sei se por se acompanharem de uma misteriosa tristeza, se simplesmente por serem grandes, azuis e brilhantes. Ela olhava para mim com um sorriso fantástico, extremamente simpático. Toda ela era simpatia! Eu acenei, mas não consegui desviar o olhar. Nem em um momento!
Enquanto passávamos um pelo outro, o meu pescoço ia rodando. Ali, quem mandava eram os meus olhos, eu não tinha controlo absolutamente nenhum sobre o meu corpo. Pensava:
- Pá, não dês tanto nas vistas!!!! Ainda a rapariga se vai sentir mal!!! Não olhes!!!!
Mas não conseguia evitar. Quem era aquela miúda? Aquele ser deslumbrante que acabara de passar por mim? O que fazia naquele sítio ermo, escaldante e subpovoado?
Ela olhou para trás mais três vezes antes de entrar na casa de uma ex-professora minha, da primária. Eu sei que ela olhou porque, mesmo não querendo intimidar a rapariga, o meu olhar não desviou nem um centímetro da cara dela, e seguiu-a até ela desaparecer para o interior da habitação, mas não sem antes projectar um olhar sorridente que me atingiu como um balão de água tépida.
Segui o meu caminho, mas com aquela visão dos céus na mente. Quem seria aquela deusa? – pensava eu.
Não dormi nada durante a noite.
- Jonas! - ouvi a minha mãe gritar de manhã - Vamos à praia, levanta-te!
A vontade era pouca ou nenhuma. O sono, por sua vez, era muito. No entanto, a indignação por não ter pregado olho por causa de uma desconhecida, era mais que o sono, tanta que o esqueci e lá fui para a praia onde, claro, não esqueci a loira sem nome.

20 anos volvidos e muitas namoradas depois...

Por acidente, tropecei numa música que lembrava gostar bastante, mas o que viria a seguir foi tão inesperado como ver o meu alegre sorriso daquele momento ser arrancado por qualquer uma força maior. E ambas as surpresas aconteceram. Naquele preciso momento em que a música começa a tocar, ambas acontecem! Sim, eu gostava bastante da música, mas nunca poderia imaginar que, ao ouvi-la tantos anos depois da última vez, me fizesse lembrar a infância de há 20 anos. Tudo naquela música tinha o nome Belinda. As memórias, estranhamente, eram as memórias mais dolorosas que tinha, mesmo sem as ser. O que se passara há 20 anos com aquela rapariga perfeita que era tão doloroso? Seria ela me ter trocado por outro? Seria eu a ter rejeitado, obrigando-a a trocar-me por outro? Seriam saudades do que nunca existiu? Eram muitas dúvidas a responder. Mas por quem? Quem tinha a resposta? Mais dúvidas, para meu desespero.
A música era ouvida por todo prédio, e eu não me ralava que fossem 2 da manhã, só precisava de ouvir aquela música, uma, duas, três, quatro, cinco e mais muitas vezes. Era até acabarem as lágrimas.
Naqueles quatro minutos de sofrimento, 20 anos de vida passaram-me diante dos olhos, como se de um último fôlego se tratasse, como se a minha vida fosse acabar naquele preciso momento. Mas era precisamente isso que eu sentia. Que a minha vida acabaria se não a visse novamente.

NOTA: Todo o conteúdo deste blog é da responsabilidade de um conjunto alargado de pessoas e respectivas atitudes, que sem muito esforço, conseguiram enlouquecer por completo o autor, provocando uma série de devaneios sem nexo, sem lógica e, definitivamente sem nenhuma razão de ser.

domingo, 23 de maio de 2010

Cap 2

 CAPITULO II - CHOQUES EM CADEIA


"Papá, papá. Chegaste!" - grita, eufórico, Santiago, filho único do Virgílio.

Virgílio abraça muito discretamente o seu filho e segue para a sala das armas. Coloca a chave na fechadura e abre a pesada porta de madeira que separa a vida da sua família da sua. Ele pode ser um caçador destemido, mas não é esse o seu desejo para o futuro do seu filho, e não é essa a vida que quer transmitir à sua adorada esposa, Vitória, de quem esconde a sua verdadeira atividade. Para a esposa e o filho, Virgílio é um simples caçador que cultiva os seus próprios legumes, verduras e alguma fruta.

Santiago, de 9 anos de idade, estuda na escola da aldeia, e ao contrário dos restantes miúdos da sua idade, Santiago não ajuda o seu pai no trabalho, não acompanha o seu pai ao trabalho, o que de certo modo o deixa desgostoso.

"Venham para a mesa". - grita Vitória, enquanto coloca a última travessa de salada na mesa.

"Vou já." - respondem ambos os homens da casa em uníssono.

Santiago espera pelo pai à porta do escritório, e assim que ouve o rodar da chave na fechadura, põe-se em sentido, todo sorridente. O pai abre a porta, sai e tranca-a, sorri para o filho e abraça-o a caminho da cozinha. "Mãe, mãe, o pai está aqui e cheio de fome. Não é, pai?" - pergunta o entusiasmado Santiago.

 "É sim, filho". - responde Virgílio.

 "Já disseste ao pai o que fizeste hoje na escola?" - pergunta a mãe. 

"Pai, hoje fizemos um teatro". - começa o pequeno.

"Boa! Sobre o quê?" - interrompe o pai.

"Sobre o Rei D. Sebastião, que nos vai salvar". - continua Santiago.

"Um rei que nos vai salvar?!?!" Isso é possível? Não me parece!" - interrompe novamente Virgilio.

"É sim, pai. A professora diz que o Rei D. Sebastião se perdeu e que num dia de nevoeiro vai regressar para nos salvar. Ele só está escondido e à espera do momento certo para aparecer".

"Essa professora é maluca". - diz Virgilio, incomodado.

"Virgilio!" - interpõe a esposa.

"Quê? Tenho razão! Isso são histórias para enganar as crianças. Nada disso é verdade". - esclarece. - "Filho, sabes que esse rei jámorreu há quinhentos anos, certo?"

"Mas a professora diz que ele está só à espera do momento certo para nos salvar e que estamos seguros". - responde a criança.

"Sim, seguro estás." - diz Virgilio, não querendo continuar a conversa, não vá ele se descuidar e dizer mais do que aquilo que quer.


*


 O dia começa com o chirlear dos passarinhos que habitam em praticamente todas as árvores em redor da casa, mas não é isso que faz com que acorde mal disposto. Bergliot entreabre os olhos, espriguiça-se, e aí sim, de sobressalto bate com a cabeça no teto da jaula. Doi-lhe, então salta violentamente de costas contra a uma parede dessa mesma jaula. Solta um uivo e pára! Olha muito devagar para as mãos e de repente todas as memórias do dia anterior invadem-lhe o pensamento. E como que é atingido violentamente por uma avalanche. Afinal não foi um sonho, um terrível e irreal pesadelo! Era mesmo verdade! Ele já não era ele, era alguém diferente. Era algo diferente.

 "O pequeno-almoço está pronto!" - grita Isabel para um Afonso ainda aconchegado debaixo dos lençóis.

 "Sim, já vou". - resmunga ele tapando a cabeça com a almofada.

 "Está tudo preparado em cima da mesa. Vou andando. Deixa que eu aproveito e compro umas cenas na aldeia. Trago-as ao fim do dia". - continua ela. E assim pega numa pequena mochila e sai porta fora.

 Afonso semiabre um olho e, depois de pensar um bocado, resolve levantar-se. Aproveita que já tem o pequeno-almoço preparado e deleita-se com um café magistralmente preparado, umas linguiças de alta qualidade, e um pãozinho quentinho acabado de sair do forno. Saciado, prepara um prato extra e leva-o para o encarcerado.

   "Não sei se me percebes, mas trouxe-te o pequeno-almoço". - disse Afonso a Bergliot. Bergliot acena que sim com a cabeça e joga-se ao prato. Estava faminto.

   "Tu... Percebes o que te digo?" - pergunta. Bergliot levanta a cabeça e olha para ele, depois baixa-a e continua a comer aquela comida maravilhosa. Pelo menos era o que lhe parecia, com a fome que tinha. 

   "Claro que não percebe! Estúpido!" - continuou, falando com ele próprio. 

   Bergliot pára de comer, levanta a cabeça, olha fixamente para os olhos de Afonso e pensa como há-de perguntar que porra quer ele dizer com aquilo.


*


   "Pai, vais levar-me à escola, hoje? Vais, pai? Vais?" - pergunta o pequeno Santiago. 

   "Sim, filho. Hoje vou". - responde o pai, sorrindo pela insistência do pequeno folião. - "Já estás despachado?"

   "Sim. Vamos!" - responde o miúdo. 

   Da casa à aldeia são aproximadamente 4 quilómetros, viagem que se faz em mais ou menos 10 minutos, visto que a maioria do percurso é feito em estrada de terra. O Santiago adora ir para a escola com o pai porque faz a viagem na caixa da carrinha, e aproveita para sentir o vento a beijar-lhe a cara enquanto aprecia muito mais a vista do que enclausurado na cabine. De lá pode ver a casa em ruínas que dizem ter pertencido a uma bruxa que transformou um grupo de criancinhas em coelhos (dizem que alguns dias depois de um grupo de 7 amigos ter desaparecido, foram encontrados 7 coelhinhos numa pequena gaiola no quintal da casa da senhora que a habitava. De pronto foi acusada de bruxaria. Certo é que ela nunca o desmentiu. Era a Casa da Coelhinha). Na viagem também passavam por uma das fontes com a mais pura das águas da região, onde a extração ainda era feita por meio de um balde metálico puxado por uma corda, e a mais velha árvore num raio de 150 quilómetros, com 900 anos ou mais. Eram muitos os pontos de interesse que levavam o pequeno Santiago a adorar a carrinha do pai.

   "Valter, Valter. Estou aqui. Na carrinha do meu pai". - grita Santiago ao amigo que também acabava de chegar. "Saio já aqui pai. Está ali o Valter".

  "Ok, filho. Podes saltar". - diz Virgílio. 

   Enquanto Santiago descia da carrinha, a professora dele também se aproxima da entrada da escola.

    "Bom dia, Santiago". - diz a professora.

   "Bom dia, professora Isabel. - responde. "Pai, esta é a minha professora Isabel". - apresenta. 

   Virgílio, não partilhando do entusiasmo do filho, olha para a mulher, fita-a da alto a baixo. "Bom dia". - vomita.

   Isabel estranha a reação do pai do seu aluno, mas nao cede. "Bom dia". - responde. - "O Santiago é um menino bastante inteligente". - diz, na tentativa de quebrar o gelo.

   "Sim, é! Mas também muito influenciável". - rosna. "Tenha um bom dia". - termina, arrancando a alta velocidade, como se tivesse atrasado para algum compromisso. 

   Isabel fica a olhar para a carrinha do homem enquanto se afasta, sem resposta, completamente parva sem saber bem o que aconteceu.


*


   Do outro lado da aldeia, na oficina do Aníbal, reúnem-se o Igor, o Cajó e o próprio Aníbal.

   A oficina do Aníbal, tal como é chamada, fica mesmo à saída da aldeia, perfeito para os encontros secretos dos caçadores.

   "Como é esta noite? Vamos sair?" - pergunta o Igor, com a sua voz profunda, perfeita para fazer rádio.

   "Temos de esperar pelo Virgílio". - responde o Aníbal

   "Ok. Que se decidam rápido, porque posso, ou não, ter planos esta noite". - diz o Igor.

   "Uhhh! Tenho planos esta noite! Eu vou sair, sem ser à caça!. Uhhh!" - goza o Cajó.

   "Meu! Tens o quê? 4 anos? - pergunta o Igor.

   "Não! Tu tens 4 anos!" - devolve o Cajó.

   "Meu! Não gozes!"

   "Meu! Não gozes tu!"

   Igor, já irritado - "Tu sabes que eu posso partir-te ao meio com dois dedos , não sabes?"

    "E tu sabes que eu posso fugir daqui antes disso, não sabes?" - arrisca.

   "AH! AH! AH! AH! Vá, já chega de..." - começa o Aníbal.

   "UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU" - sai de um carro que passa a alta velocidade, vindo do nada, como também veio do nada este uivo, enquanto os amigos olham com cara de parvos para o carro que desaparece no horizonte, e com a mesma cara de parvos acabam a olhar uns para os outros.

   "Vamos mas é tratar de negócios" - dispara o Aníbal na direção do Igor, como o bom homem de negócios que é. - "O que se passa com o teu carro, afinal?"


*


  Afonso mudou recentemente de profissão, trabalha agora na biblioteca municipal, na cidade mais próxima, apenas a quinze minutos da aldeia. Ele sempre foi muito habilidoso, então já trabalhou como marceneiro, serralheiro, pedreiro, mas, de comum acordo com Isabel, decidiram que havia de trabalhar na biblioteca, o que lhes facilitava o acesso a qualquer informação que precisassem.

   “Bom dia” - diz, muito sorridente, uma ávida frequentadora da biblioteca, D. Ermelinda. 

   “Bom dia, D. Ermelinda. Como posso ajudá-la hoje?” - responde Afonso, simpático. 

   “Menino Afonso, hoje está a apetecer-me um romance. Que me diz, tem algo para mim?” - diz, com um sorriso maroto estampado na face enrugada dos seus 72 anos vividos como doméstica e mãe de quatro, três meninas e um menino. O seu marido havia falecido há perto de 6 anos, de doença prolongada, evento que a deixou completamente devastada, mas agora, passado este tempo, já aceitou o processo natural da vida, e adora, adora namoriscar com homens mais novos. A mais recente vítima dos seus encantos é Afonso, mas ele não se importa nada, e também gosta de alinhar na brincadeira, o que a mantém rejuvenescida. 

   “Tenho sim” - responde. “Acompanhe-me à secção do Romance, por favor”. - sorri.

   Enquanto o segue, a D. Ermelinda observa, com muita atenção, a traseira das calças de Afonso, enquanto vai fazendo comentários atrevidos: 

   “Ai, menino Afonso, se eu fosse 30 anos mais nova...” 

   “Ó D. Ermelinda. Bastavam 20 anos mais nova, só 20”. - diz Afonso, enquanto pisca o olho. De imediato começam os dois a rir à gargalhada, o que provoca um enorme <Pxiuuuu!> em uníssono de todos os utentes daquele espaço de leitura. 

   Chegados à secção Romance, de pronto Afonso tira um dos livros da prateleira e entrega-o a D. Ermelinda. 

   “Este é perfeito para o que deseja”. - diz. 

   “Obrigada, menino Afonso. Quando acabar este, já o procuro”. - sorri. 

   “Esteja à vontade, D. Ermelinda. Boas leituras”. - responde, enquanto regressa à entrada da biblioteca, onde tem o seu livro pousado debaixo do balcão, aberto na última página lida.

   No topo do livro pode ler-se o título do capítulo o de se encontra: <As lendas vindas do norte>, que sugere exactamente o que aquele capítulo aborda; algumas, se não todas as lendas conhecidas originárias de países nórdicos.

   Apesar de Afonso e Isabel serem os detentores dos dois livros considerados os mais completos no que a mitos, lendas e maldições diz respeito, nenhum deles contém toda a informação necessária para quebrar a maldição de Bergliot, pelo que é necessário pesquisar outros autores, mesmo que muitos deles sejam intrujões.