domingo, 23 de maio de 2010

Cap 2

 CAPITULO II - CHOQUES EM CADEIA


"Papá, papá. Chegaste!" - grita, eufórico, Santiago, filho único do Virgílio.

Virgílio abraça muito discretamente o seu filho e segue para a sala das armas. Coloca a chave na fechadura e abre a pesada porta de madeira que separa a vida da sua família da sua. Ele pode ser um caçador destemido, mas não é esse o seu desejo para o futuro do seu filho, e não é essa a vida que quer transmitir à sua adorada esposa, Vitória, de quem esconde a sua verdadeira atividade. Para a esposa e o filho, Virgílio é um simples caçador que cultiva os seus próprios legumes, verduras e alguma fruta.

Santiago, de 9 anos de idade, estuda na escola da aldeia, e ao contrário dos restantes miúdos da sua idade, Santiago não ajuda o seu pai no trabalho, não acompanha o seu pai ao trabalho, o que de certo modo o deixa desgostoso.

"Venham para a mesa". - grita Vitória, enquanto coloca a última travessa de salada na mesa.

"Vou já." - respondem ambos os homens da casa em uníssono.

Santiago espera pelo pai à porta do escritório, e assim que ouve o rodar da chave na fechadura, põe-se em sentido, todo sorridente. O pai abre a porta, sai e tranca-a, sorri para o filho e abraça-o a caminho da cozinha. "Mãe, mãe, o pai está aqui e cheio de fome. Não é, pai?" - pergunta o entusiasmado Santiago.

 "É sim, filho". - responde Virgílio.

 "Já disseste ao pai o que fizeste hoje na escola?" - pergunta a mãe. 

"Pai, hoje fizemos um teatro". - começa o pequeno.

"Boa! Sobre o quê?" - interrompe o pai.

"Sobre o Rei D. Sebastião, que nos vai salvar". - continua Santiago.

"Um rei que nos vai salvar?!?!" Isso é possível? Não me parece!" - interrompe novamente Virgilio.

"É sim, pai. A professora diz que o Rei D. Sebastião se perdeu e que num dia de nevoeiro vai regressar para nos salvar. Ele só está escondido e à espera do momento certo para aparecer".

"Essa professora é maluca". - diz Virgilio, incomodado.

"Virgilio!" - interpõe a esposa.

"Quê? Tenho razão! Isso são histórias para enganar as crianças. Nada disso é verdade". - esclarece. - "Filho, sabes que esse rei jámorreu há quinhentos anos, certo?"

"Mas a professora diz que ele está só à espera do momento certo para nos salvar e que estamos seguros". - responde a criança.

"Sim, seguro estás." - diz Virgilio, não querendo continuar a conversa, não vá ele se descuidar e dizer mais do que aquilo que quer.


*


 O dia começa com o chirlear dos passarinhos que habitam em praticamente todas as árvores em redor da casa, mas não é isso que faz com que acorde mal disposto. Bergliot entreabre os olhos, espriguiça-se, e aí sim, de sobressalto bate com a cabeça no teto da jaula. Doi-lhe, então salta violentamente de costas contra a uma parede dessa mesma jaula. Solta um uivo e pára! Olha muito devagar para as mãos e de repente todas as memórias do dia anterior invadem-lhe o pensamento. E como que é atingido violentamente por uma avalanche. Afinal não foi um sonho, um terrível e irreal pesadelo! Era mesmo verdade! Ele já não era ele, era alguém diferente. Era algo diferente.

 "O pequeno-almoço está pronto!" - grita Isabel para um Afonso ainda aconchegado debaixo dos lençóis.

 "Sim, já vou". - resmunga ele tapando a cabeça com a almofada.

 "Está tudo preparado em cima da mesa. Vou andando. Deixa que eu aproveito e compro umas cenas na aldeia. Trago-as ao fim do dia". - continua ela. E assim pega numa pequena mochila e sai porta fora.

 Afonso semiabre um olho e, depois de pensar um bocado, resolve levantar-se. Aproveita que já tem o pequeno-almoço preparado e deleita-se com um café magistralmente preparado, umas linguiças de alta qualidade, e um pãozinho quentinho acabado de sair do forno. Saciado, prepara um prato extra e leva-o para o encarcerado.

   "Não sei se me percebes, mas trouxe-te o pequeno-almoço". - disse Afonso a Bergliot. Bergliot acena que sim com a cabeça e joga-se ao prato. Estava faminto.

   "Tu... Percebes o que te digo?" - pergunta. Bergliot levanta a cabeça e olha para ele, depois baixa-a e continua a comer aquela comida maravilhosa. Pelo menos era o que lhe parecia, com a fome que tinha. 

   "Claro que não percebe! Estúpido!" - continuou, falando com ele próprio. 

   Bergliot pára de comer, levanta a cabeça, olha fixamente para os olhos de Afonso e pensa como há-de perguntar que porra quer ele dizer com aquilo.


*


   "Pai, vais levar-me à escola, hoje? Vais, pai? Vais?" - pergunta o pequeno Santiago. 

   "Sim, filho. Hoje vou". - responde o pai, sorrindo pela insistência do pequeno folião. - "Já estás despachado?"

   "Sim. Vamos!" - responde o miúdo. 

   Da casa à aldeia são aproximadamente 4 quilómetros, viagem que se faz em mais ou menos 10 minutos, visto que a maioria do percurso é feito em estrada de terra. O Santiago adora ir para a escola com o pai porque faz a viagem na caixa da carrinha, e aproveita para sentir o vento a beijar-lhe a cara enquanto aprecia muito mais a vista do que enclausurado na cabine. De lá pode ver a casa em ruínas que dizem ter pertencido a uma bruxa que transformou um grupo de criancinhas em coelhos (dizem que alguns dias depois de um grupo de 7 amigos ter desaparecido, foram encontrados 7 coelhinhos numa pequena gaiola no quintal da casa da senhora que a habitava. De pronto foi acusada de bruxaria. Certo é que ela nunca o desmentiu. Era a Casa da Coelhinha). Na viagem também passavam por uma das fontes com a mais pura das águas da região, onde a extração ainda era feita por meio de um balde metálico puxado por uma corda, e a mais velha árvore num raio de 150 quilómetros, com 900 anos ou mais. Eram muitos os pontos de interesse que levavam o pequeno Santiago a adorar a carrinha do pai.

   "Valter, Valter. Estou aqui. Na carrinha do meu pai". - grita Santiago ao amigo que também acabava de chegar. "Saio já aqui pai. Está ali o Valter".

  "Ok, filho. Podes saltar". - diz Virgílio. 

   Enquanto Santiago descia da carrinha, a professora dele também se aproxima da entrada da escola.

    "Bom dia, Santiago". - diz a professora.

   "Bom dia, professora Isabel. - responde. "Pai, esta é a minha professora Isabel". - apresenta. 

   Virgílio, não partilhando do entusiasmo do filho, olha para a mulher, fita-a da alto a baixo. "Bom dia". - vomita.

   Isabel estranha a reação do pai do seu aluno, mas nao cede. "Bom dia". - responde. - "O Santiago é um menino bastante inteligente". - diz, na tentativa de quebrar o gelo.

   "Sim, é! Mas também muito influenciável". - rosna. "Tenha um bom dia". - termina, arrancando a alta velocidade, como se tivesse atrasado para algum compromisso. 

   Isabel fica a olhar para a carrinha do homem enquanto se afasta, sem resposta, completamente parva sem saber bem o que aconteceu.


*


   Do outro lado da aldeia, na oficina do Aníbal, reúnem-se o Igor, o Cajó e o próprio Aníbal.

   A oficina do Aníbal, tal como é chamada, fica mesmo à saída da aldeia, perfeito para os encontros secretos dos caçadores.

   "Como é esta noite? Vamos sair?" - pergunta o Igor, com a sua voz profunda, perfeita para fazer rádio.

   "Temos de esperar pelo Virgílio". - responde o Aníbal

   "Ok. Que se decidam rápido, porque posso, ou não, ter planos esta noite". - diz o Igor.

   "Uhhh! Tenho planos esta noite! Eu vou sair, sem ser à caça!. Uhhh!" - goza o Cajó.

   "Meu! Tens o quê? 4 anos? - pergunta o Igor.

   "Não! Tu tens 4 anos!" - devolve o Cajó.

   "Meu! Não gozes!"

   "Meu! Não gozes tu!"

   Igor, já irritado - "Tu sabes que eu posso partir-te ao meio com dois dedos , não sabes?"

    "E tu sabes que eu posso fugir daqui antes disso, não sabes?" - arrisca.

   "AH! AH! AH! AH! Vá, já chega de..." - começa o Aníbal.

   "UUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU" - sai de um carro que passa a alta velocidade, vindo do nada, como também veio do nada este uivo, enquanto os amigos olham com cara de parvos para o carro que desaparece no horizonte, e com a mesma cara de parvos acabam a olhar uns para os outros.

   "Vamos mas é tratar de negócios" - dispara o Aníbal na direção do Igor, como o bom homem de negócios que é. - "O que se passa com o teu carro, afinal?"


*


  Afonso mudou recentemente de profissão, trabalha agora na biblioteca municipal, na cidade mais próxima, apenas a quinze minutos da aldeia. Ele sempre foi muito habilidoso, então já trabalhou como marceneiro, serralheiro, pedreiro, mas, de comum acordo com Isabel, decidiram que havia de trabalhar na biblioteca, o que lhes facilitava o acesso a qualquer informação que precisassem.

   “Bom dia” - diz, muito sorridente, uma ávida frequentadora da biblioteca, D. Ermelinda. 

   “Bom dia, D. Ermelinda. Como posso ajudá-la hoje?” - responde Afonso, simpático. 

   “Menino Afonso, hoje está a apetecer-me um romance. Que me diz, tem algo para mim?” - diz, com um sorriso maroto estampado na face enrugada dos seus 72 anos vividos como doméstica e mãe de quatro, três meninas e um menino. O seu marido havia falecido há perto de 6 anos, de doença prolongada, evento que a deixou completamente devastada, mas agora, passado este tempo, já aceitou o processo natural da vida, e adora, adora namoriscar com homens mais novos. A mais recente vítima dos seus encantos é Afonso, mas ele não se importa nada, e também gosta de alinhar na brincadeira, o que a mantém rejuvenescida. 

   “Tenho sim” - responde. “Acompanhe-me à secção do Romance, por favor”. - sorri.

   Enquanto o segue, a D. Ermelinda observa, com muita atenção, a traseira das calças de Afonso, enquanto vai fazendo comentários atrevidos: 

   “Ai, menino Afonso, se eu fosse 30 anos mais nova...” 

   “Ó D. Ermelinda. Bastavam 20 anos mais nova, só 20”. - diz Afonso, enquanto pisca o olho. De imediato começam os dois a rir à gargalhada, o que provoca um enorme <Pxiuuuu!> em uníssono de todos os utentes daquele espaço de leitura. 

   Chegados à secção Romance, de pronto Afonso tira um dos livros da prateleira e entrega-o a D. Ermelinda. 

   “Este é perfeito para o que deseja”. - diz. 

   “Obrigada, menino Afonso. Quando acabar este, já o procuro”. - sorri. 

   “Esteja à vontade, D. Ermelinda. Boas leituras”. - responde, enquanto regressa à entrada da biblioteca, onde tem o seu livro pousado debaixo do balcão, aberto na última página lida.

   No topo do livro pode ler-se o título do capítulo o de se encontra: <As lendas vindas do norte>, que sugere exactamente o que aquele capítulo aborda; algumas, se não todas as lendas conhecidas originárias de países nórdicos.

   Apesar de Afonso e Isabel serem os detentores dos dois livros considerados os mais completos no que a mitos, lendas e maldições diz respeito, nenhum deles contém toda a informação necessária para quebrar a maldição de Bergliot, pelo que é necessário pesquisar outros autores, mesmo que muitos deles sejam intrujões.